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quarta-feira, 4 de novembro de 2015

A Pele de Vênus (La Vénus à la Fourrure)

Título Original: La Vénus à la Fourrure (França, Polônia, 2013)
Com: Mathieu Amalric e Emmanuelle Seigner
Direção: Roman Polanski
Roteiro: Roman Polanski (baseado na peça de David Ives)
Duração: 96 minutos

Nota: 4 (ótimo)





O filme “A Pele de Vênus” é uma verdadeira viagem metalinguistica. O roteiro escrito por Roman Polanski, que também é o diretor, é baseado na peça de teatro escrita por David Ives. Na história um diretor de teatro está montando ume peça baseada no livro de Leopold von Sacher-Masoch. 


Encontramos Thomas (Mathieu Amalric) num pequeno teatro onde ele passou o dia testando atrizes para sua peça sem sucesso em encontrar alguém. Eis que surge Vanda (Emmanuelle Seigner) totalmente atrasada e aparentemente um pouco atrapalhada dando várias desculpas pelo atraso. Ele não está muito paciente e interessado nela, mas após muita insistência dela eles resolvem fazer a audição para o papel. Aí é que começa o filme.

Leopold von Sacher-Masoch

Leopold é um escritor austríaco cuja a obra mais conhecida é justamente “A Vênus das Peles” que o personagem do filme quer adaptar. O livro é de 1870 e fala sobre a paixão de Severin por Vanda envolvendo submissão sexual com dor e prazer com direito a chicote e roupas de couro. É do nome do autor que surgiu a expressão masoquismo. Essa tema está na moda recentemente graças ao sucesso do livro e do filme “Cinquenta tons de cinza”. Saber pelo menos esse básico de informações já ajuda na interpretação do filme. Sem dúvidas quem leu o livro ou conhece mais sobre a história irá pegar as referências e apreciar melhor o filme, mas não é essencial para entender o mesmo. O filme acaba servindo de alguma forma para apresentar a história e saber mais sobre os personagens.




Jogo de dominação: influência pessoal na obra

Continuando com a metalinguagem, a atriz Emmanuelle Seigner é esposa do diretor Roman Polanski. O ator Mathieu Amalric até lembra um pouco fisicamente o diretor. E uma das questões do filme é justamente a influência do diretor da peça que está adaptando o livro na história. Ou seja, o quanto dele mesmo não acabou sendo incluindo no trabalho final. 

O próprio Polanski é foragido dos EUA até hoje por ser acusado de estuprar uma menina de 13 anos em 1977. 8 anos antes sua segunda mulher foi assassinada pela gangue de Charles Manson. A vida dele é bem complicada e isso acaba refletindo um pouco em seus filmes em clássicos como “O bebê de Rosemary” e “Chinatown” (o meu favorito dele).

No filme Vanda e Thomas começam como atriz e diretor, mas aos poucos começa a surgir uma disputa de poder entre eles enquanto eles fazem a audição para o papel. A mulher que parecia não saber nada sobre a obra ou mesmo sobre o diretor aos poucos começa a mostrar algumas surpresas. E assim como os personagens do livro começa um jogo de dominação entre eles para saber quem realmente está no comando. Assim como o próprio significado da obra de Sacher-Masoch que pode ser interpretada como machista ou como feminista. Tentar explicar mais do que isso pode acabar estragando as surpresas que o filme vai mostrando aos poucos.


Teatro ou cinema?

Como temos uma adaptação de uma peça de teatro e apenas dois personagens em cena fica a questão: seria mesmo um filme ou apenas uma peça de teatro filmada? Sem dúvidas o negócio foi feito como um filme. Apesar das cenas se passarem num teatro, não existem espectadores, apenas os dois em cena. A edição é bem interessante ao alterar o ponto de vista de cada um ou mostrar algum pequeno detalhe como o zíper sendo fechado de uma bota, por exemplo. Apesar de ser um pouco “teatral”, ele é puro cinema.

Agora sem dúvidas nada disso funcionaria se não fosse a dupla de atores. E Mathieu Amalric e Emmanuelle Seigner entregam performances sensacionais. A química entre eles e as transformações que os personagens vão passando aos poucos mostrando suas reais motivações (que podem ser reais ou não) são muito bem construídas. O trabalho deles é muito bom e já vale o filme, principalmente Seigner.

A única coisa que fez com que não tivesse achado o filme excelente foi a falta de conhecimento da obra. Acho que se tivesse lido com certeza teria pegado melhor as referências e discussões que o filme (e a peça) provocam. Mesmo assim o resultado também é muito bom.
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