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quarta-feira, 17 de outubro de 2018

O Primeiro Homem (First Man)

É sempre bom ver uma cinebiografia focar no lado humano do seu protagonista. É com essa abordagem que o diretor Damien Chazelle (La La Land e Whiplash) apresenta a história do astronauta Neil Armstrong (Ryan Gosling), primeiro homem a pisar na Lua, no filme “O Primeiro Homem”. Sem dúvidas Armstrong é uma das figuras históricas mais importantes da humanidade. No entanto Chazelle desconstrói a figura do “herói” para mostrar o quanto o homem sofreu no seu lado pessoal para alcançar essa conquista.

A primeira cena do filme já deixa claro o isolamento em torno da vida pessoal de Neil Armstrong e o vemos dentro de uma aeronave chegando à órbita da Terra. O cineasta utiliza muitos closes e planos fechados para passar para o espectador a sensação de claustrofobia do personagem dentro do veículo. O desenho de som contribui para a total imersão dentro desse sentimento. E esse momento é uma metáfora do própria vida de Armstrong.

Neil é um homem sério e calado, que nunca fala sobre os seus sentimentos. Essa situação piora após perder sua filha pequena, vítima de câncer. Após a perda, ele começa a trabalhar na NASA, que serve como uma forma de “começar de novo”. Contudo acompanhamos durante toda a projeção que a vida da família Armstrong nunca mais foi a mesma. A profissão de piloto e depois de astronauta é muito difícil e eles tinham que lidar constantemente com a perda de colegas de trabalho, vítimas de acidente. Mas o protagonista teve que passar por cima de tudo isso, praticamente deixar sua família de lado, para conseguir cumprir a missão dada pelo seu país.

Mesmo dentro de casa o isolamento de Armstrong é visível graças a excelente fotografia de Linus Sandgren. O uso da iluminação é brilhante em estabelecer esse sentimento ao espectador. Vemos o casal jantando em uma mesa na sala, onde percebemos o tamanho do local, mas o foco de luz em cima deles deixa claro a sensação de solidão dos dois. O roteiro de Josh Singer é inteligente em investir na personagem de Janet (Claire Foy) e mostrar o ponto de vista dela diante da situação. O marido está quase sempre fora de casa trabalhando enquanto ela tem que cuidar da família. A cena em que ela obriga Neil e conversar com seus filhos antes de embarcar na missão da Apollo 11 é excelente em mostrar a importância da mulher na vida deles.

O trabalho do elenco é muito bom em estabelecer esse lado pessoal dos personagens, fundamental para a narrativa funcionar de forma verossímil. Ryan Gosling entrega mais uma excelente atuação, explorando o lado silencioso de Neil, investindo na linguagem corporal. Mas quem rouba a cena sempre que está presente na tela é Claire Foy, já que é a partir do ponto de vista dela que o espectador percebe o quanto do lado familiar dos Armstrong é abalado por causa da rotina de trabalho do marido, sobrando para ela ter que sustentar todo esse peso emocional sozinha.

Na parte técnica “O Primeiro Homem” também apresenta muitas qualidades, como a já citada fotografia e no desenho de som. É bom enfatizar o trabalho na imersão da claustrofobia e realismo das cenas dentro das aeronaves e foguetes, principalmente no final com a cena da viagem à Lua.
A trilha sonora de Justin Hurwitz explora o silêncio em busca de verossimilhança, mas usa temas grandiosos nos momentos certos para incluir o sentimento em torno da conquista do personagem nos seus atos como astronauta. Afinal de contas, nas palavras do próprio Neil: "Um pequeno passo para um homem, um salto gigantesco para a humanidade".

A reconstituição de época também é muito boa, através dos figurinos e do design de produção, garantindo que o espectador realmente se sinta como se estivesse nos anos 1960. O mais interessante é a riqueza de detalhes dos aviões e foguetes, com o painel cheio de indicadores e botões.

A grande conquista de “O Primeiro Homem” é apresentar de forma tão humana uma figura histórica importante como Neil Armstrong. Um homem responsável por um dos maiores feitos da história da humanidade, mas que pagou um preço pessoal muito alto pela conquista. O diretor Damien Chazelle conseguiu explorar toda a nuance de sua vida pessoal, além de entregar um trabalho de imersão incrível dentro da vida do astronauta.

Classificação:

Título Original: First Man (EUA, 2018)
Com: Ryan Gosling, Claire Foy, Jason Clarke, Kyle Chandler, Corey Stoll, Ciarán Hinds, Christopher Abbott, Patrick Fugit e Lukas Haas
Direção: Damien Chazelle
Roteiro: Josh Singer
Duração: 141 minutos
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