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quarta-feira, 30 de março de 2016

A Bruxa (The Witch)

A melhor definição que eu arrumei para definir o filme “A Bruxa” foi uma mistura de drama familiar com terror religioso. Uma história de suspense que não está interessada em dar sustos e sim em criar um clima de constante tensão mais preocupado com o lado psicológico e sugestivo do que mostrar algo na tela. Até quando ele resolve apresentar algo mais visual ainda sim fica a dúvida se aquilo é mesmo real ou apenas a imaginação de algum personagem.

A história se passa na Nova Inglaterra no século 17. Uma família é expulsa do seu vilarejo e vai morar numa cabana localizada na beira de uma floresta. Os pais William (Ralph Ineson) e Katherine (Kate Dickie) são extremamente católicos e a vida deles segue bem os dogmas da religião. O drama deles aumenta quando o bebê Samuel some enquanto sua irmã mais velha Thomasin (Anya Taylor-Joy) estava tomando conta dele. Esse é apenas o início do drama que irá atormentar a família.

Então após o acontecido não demora em surgir intrigas dentro do grupo. E graças as crenças religiosas a culpa acaba caindo sobre a pobre da Thomasin. A jovem já começa a mostrar sinais que está virando uma mulher e isso acaba chamando a atenção tanto de seu irmão pré-adolescente Caleb (Harvey Scrimshaw) quanto do próprio pai. Mas mesmo a mãe não pensa diferente e a acusa de ser a causa dos problemas, isto é, de ser uma bruxa. Ou seja, a menina é acusada simplesmente pelo fato de ser uma mulher.

É muito interessante como o diretor e roteirista Robert Eggers vai construindo aos poucos o dia a dia da família mostrando todas as dificuldades que eles enfrentam em suas tarefas diárias. E como os filhos são obrigados a assumir responsabilidades logo cedo sendo forçados a amadurecer mesmo sem estar prontos para isso. Além disso, ele vai desenvolvendo e apresentando os personagens ao mesmo tempo em que vai criando o clima de suspense e tensão de maneira sutil, sugestiva e eficiente.

Ele utiliza diversas simbologias para mostrar a importância da religião na vida simples do campo da época para os personagens. E o mais importante, como esses dogmas religiosos podem servir ao mesmo tempo para motivação frente às adversidades, mas também como enxergar o ocorrido como a ira de Deus por terem feito alguma coisa errada, isto é, cometido algum pecado. Mas no final das contas os dogmas que deveriam mantê-los unidos e felizes os farão entrar em conflitos consigo mesmos e uns com os outros.

A fotografia de Jarin Blaschke é muito hábil em mostrar o quão hostil a floresta parece ser do ponto de vista da casa da família. Toda vez que alguém se dirige a ela fica a impressão de que o pior pode acontecer. As cenas no escuro a luz de velas também são bem interessantes ao mostrar o quão hostil o próprio interior da cabana pode parecer durante a noite.

O elenco também é digno de nota, principalmente a jovem Anya Taylor-Joy que consegue retratar muito bem o drama de sua personagem Thomasin mostrando bastante talento. O jovem Harvey Scrimshaw também tem ótimos momentos. E claro que os adultos também não ficam atrás com atuações muito boas contribuindo para a verossimilhança da história. Sem isso nem mesmo com um ótimo roteiro o filme não iria funcionar.
Inclusive o roteiro foi baseado em relatos reais de jornais e escritos da época. Isso não quer dizer obviamente que o que é mostrado no filme aconteceu de verdade. Mostra apenas a visão das pessoas da época em lidar com o desconhecido. Se algo foge da sua compreensão e é ruim, então só pode ser coisa do demônio ou de uma bruxa. O grande pecado do filme, e isso pode ser um pouco de SPOILER se você não assistiu o filme, é que ele acaba sendo muito “literal” no seu final já que ele passou o tempo todo numa visão mais sugestiva e na conclusão acaba indo um pouco longe demais.

Ainda assim eu enxergo o final de maneira interessante (mais uma vez não continue lendo se não tiver assistido o filme) já que de alguma maneira quer dizer que a pessoa só estará totalmente livre para fazer o que bem quiser se deixar os dogmas religiosos de lado e assumir o seu lado “bruxa” se entregando ao diabo e a tentação.

O diretor Robert Eggers faz uma ótima estreia e entrega um filme simples e muito bom por saber utilizar de maneira eficiente e inteligente uma história de terror que utiliza alguns elementos básicos do gênero só que numa abordagem mais “realista” e sugestiva. Mesmo com o final pecando um pouco, o resultado é bastante positivo e mostra o talento do cineasta e também roteirista.

Título Original: The Witch (Estados Unidos, Canadá, 2015)
Com: Anya Taylor-Joy, Ralph Ineson, Kate Dickie, Harvey Scrimshaw, Ellie Grainger, Lucas Dawson e Wahab Chaudhry
Direção e Roteiro: Robert Eggers
Duração: 93 minutos

Nota: 4 (ótimo)
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