Em “O Agente Secreto”, o diretor Kleber Mendonça Filho apresenta mais uma obra de alto teor sociopolítico. A trama é ambientada em 1977 durante a Ditadura Militar, então não é um longa-metragem especificamente sobre o regime autoritário, mas sim uma história que se passa nesse período, trazendo consigo algumas consequências marcantes da época.
O protagonista interpretado com maestria por Wagner Moura é um homem que está em fuga. Ele era um professor universitário, mas tudo mudou após um atrito com um empresário envolvido com o regime militar, que assume o controle e impõe mudanças no local de trabalho. Naturalmente, quem não concordasse com o que o regime ditava se tornava persona non grata. No entanto, a obra de Kleber abraça diversos temas em sua narrativa.
Um dos temas centrais é a importância da memória, ilustrada no tempo presente por uma estudante universitária que analisa os arquivos sobre o personagem de Moura. Ao incluir isso na história, o diretor e roteirista nos lembra de como é fundamental relembrar do passado. O Brasil é um país que nunca enfrentou direito o período da ditadura militar, dessa forma ainda temos ecos dela até hoje. Não por acaso tivemos um presidente que louvava torturador e tortura, justamente porque uma grande parte da população não enxerga o período governado pelos militares como algo ruim e autoritário.
A relação entre pais e filhos também ganha destaque. É interessante notar como o protagonista faz de tudo para estar com seu filho, especialmente após perder a esposa. Contudo, outros personagens apresentam formas diferentes em como esse relacionamento é retratado. O homem que chega com o filho na universidade é um bom exemplo em como a estrutura de poder passa de pai para filho. Ou como vemos a dupla de matadores que está em busca do personagem de Moura tem a passagem de conhecimento sobre a “profissão”, a troca de experiências.
Também é importante ressaltar o simbolismo do prédio organizado por Dona Sebastiana (Tânia Maria), que dá asilo a refugiados políticos. Normalmente, associa-se a perseguição militar apenas a 'terroristas'. Mas como dizer que gente como um professor universitário, um jovem gay ou uma mulher divorciada podem ser classificados como “subversivos”? Mas era assim que o sistema funcionava.
Logo na primeira cena de “O Agente Secreto”, quando vemos o protagonista parar em um posto de gasolina, presenciamos um momento que diz muito sobre o Brasil da época, mas que ecoa até hoje. Existe um cadáver exposto ao sol, mas como é carnaval nenhum policial veio buscar, ou investigar. Quando a viatura finalmente aparece, aproveita para fazer uma vistoria no carro do personagem de Moura. A intenção é achar alguma “irregularidade” e com isso cobrar propina para que eles possam fazer vista grossa.
A corrupção do governo era algo comum, mas como quem denunciasse estava indo contra o sistema autoritário, então não existiam denúncias sobre o tema. Mas ainda existem aqueles que acreditam que esse tipo de coisa não ocorreu durante a ditadura e que os militares eram honestos. Os meios de comunicação não tinham liberdade para fazer muita coisa e as notícias tinham que passar pelo crivo da censura. O máximo que acontecia era usar artifícios para desviar a atenção da opinião pública. Isso é retratado de forma brilhante através da “perna cabeluda”, uma lenda urbana famosa de Pernambuco.
Kleber aproveita essa lenda para fazer referência ao filme “Tubarão”, clássico de Steven Spielberg que foi lançado na época em que a história se passa. Uma das marcas registradas do diretor é incluir menções ao mundo da 7ª arte. Não por acaso temos cenas dentro de uma sala de cinema.
Claro que nada disso funcionaria sem o elenco. Além de um grande diretor e roteirista, Kleber sabe muito bem comandar seus atores. Obviamente o principal destaque é Wagner Moura, que desenvolve o protagonista com riqueza e sutileza. Mas temos excelentes atuações que é até difícil destacar apenas alguns nomes. Sem dúvidas quem rouba a cena são as mulheres. Isso é notável, considerando que estamos diante de uma trama na qual os homens são os protagonistas. Primeiro temos Tânia Maria, que transforma Dona Sebastiana em uma figura totalmente carismática e acolhedora. Já Alice Carvalho, que interpreta a esposa do personagem de Moura, mesmo com pouco tempo de tela deixa sua marca com uma atuação explosiva, em um reflexo de toda a raiva contida diante dos problemas que ela presencia.
Misturando referências pop, críticas sociopolíticas e grandes atuações, Kleber Mendonça Filho constrói “O Agente Secreto” de maneira fascinante. É impressionante como a história toma rumos surpreendentes e como o cineasta aproveita para se aprofundar em temas através do estudo dos personagens. O resultado é um grande filme, que tem como grande trunfo explorar tão bem temas importantes para a história do país. É um filme de época, só que encontra ainda muitos ecos na atualidade. E é isso que o torna essencial e imperdível.
Classificação:
Com: Wagner Moura, Carlos Francisco, Tânia Maria, Robério Diógenes, Alice Carvalho, Gabriel Leone, Maria Fernanda Cândido, Hermila Guedes, Isabel Zuaa e Udo Kier
Direção: Kleber Mendonça Filho
Roteiro: Kleber Mendonça Filho
Duração: 158 minutos
Direção: Kleber Mendonça Filho
Roteiro: Kleber Mendonça Filho
Duração: 158 minutos




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