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quinta-feira, 30 de abril de 2026

Exit 8

A premissa do game “The Exit 8” basicamente consiste em ser um jogo dos 7 erros. O jogador caminha pelo corredor de uma estação de metrô e observa atentamente os detalhes do local. Caso esteja igual à vez anterior, pode seguir em frente. Caso esteja diferente, então deve retornar por onde veio. É necessário fazer isso por 8 vezes seguidas para conseguir encontrar a saída. Se errar é necessário começar novamente. Como adaptar isso para o cinema?

O diretor Genki Kawamura fez um ótimo trabalho ao escrever o roteiro junto com Kentaro Hirase e criou uma breve história de fundo para o protagonista. O personagem não tem nome e é referenciado apenas como “The Lost Man” (o homem perdido). Ele é um homem japonês comum que ao saltar de um metrô e caminhar em direção à saída percebe que não consegue sair, sempre retornando ao mesmo lugar que estava antes. Nesse momento, ele estava conversando no celular com uma ex-namorada, que o informa estar num hospital e que está grávida.

Seria então estar perdido dentro do metrô uma metáfora existencial para o dilema enfrentado pelo protagonista? Esse é o principal tema de “Exit 8”. O personagem principal precisa decifrar o que fazer para sair do local. Assim, o filme de Genki Kawamura explora bem essas nuances psicológicas e existenciais.

A primeira coisa que chama a atenção é a cenografia. A construção do corredor da estação do metrô é formada por uma parede de azulejos brancos. Um cenário básico e comum, mas assim as particularidades chamam a atenção. Temos alguns cartazes, placas de sinalização e portas. Então tanto a figura central como o espectador percebem o quanto é necessário prestar atenção nos detalhes.

É curioso notar algumas referências pop, como um cartaz sobre Escher, “artista gráfico holandês mundialmente famoso por suas gravuras que exploram ilusões de ótica, arquiteturas impossíveis e conceitos matemáticos complexos”. É possível observar a influência do artista no conceito do cenário, pois o local tem outra característica importante: no final tem uma virada para a esquerda e em seguida para a direita, então ele começa novamente. Dessa forma, isso cria a sensação de ser infinito.

Outro ponto importante é a fotografia, que inicialmente explora o ponto de vista subjetivo do protagonista. Então é como se estivéssemos em um jogo de videogame em primeira pessoa. Pouco depois a câmera muda, então vemos o personagem de costas e em alguns momentos ela se aproxima dele. Pouco depois muda a visão, agora o observando de frente. Tudo isso é feito com poucos cortes, dando a impressão de ter um grande plano sequência. No entanto, esse recurso não é utilizado durante toda a trama. Mas ele é utilizado muito bem para dar uma fluidez à narrativa. Isso faz com que o espectador se sinta perdido junto com o homem dentro do ambiente.

Da mesma forma, é fundamental citar a trilha sonora da dupla Yasutaka Nakata (CAPSULE) e Shohei Amimori na ambientação da trama. Os temas criados por eles ajudam na imersão e se fundem com o desenho sonoro, criando um sentimento de angústia e urgência. O protagonista se sente desorientado pela situação peculiar e a música contribui para esse sentimento.

É importante também falar da atuação de Kazunari Ninomiya, que retrata bem a figura do homem comum japonês através de expressões corporais sutis. Ele é só mais uma pessoa que junto com muitas outras utiliza o transporte público. Sua fisionomia tranquila e passiva muda completamente após receber a ligação. E piora quando ele se dá conta de que está “perdido” dentro do lugar, assim acompanhamos sua transformação emocional.
Sendo assim, é fundamental observar como “Exit 8” explora a cultura japonesa. Um detalhe importante é que a figura central vê outra pessoa passar andando no corredor, mas inicialmente sua atitude não é pará-la e perguntar por uma orientação sobre como encontrar a saída. A individualidade é uma característica que pode refletir aspectos das tradições do país, assim não se deve incomodar o outro. Enxergamos isso na cena inicial dentro do metrô quando um homem grita com uma mulher que segura um bebê que está chorando. Nesse pequeno momento vemos também o machismo, pois a moça sozinha só pode ser irresponsável por supostamente não saber lidar com a criança. E o personagem principal prefere continuar ouvindo música no fone de ouvido, como se aquilo fosse algo normal e não é problema dele.

Por outro lado, o individualismo do protagonista se reflete em suas roupas. O figurino coloca todas as pessoas ao seu redor usando roupas de tons escuros, mas a do personagem principal tem tons cinzas claros. Ele se destaca na multidão, mas sem chamar muito a atenção.

Através da análise de todos esses detalhes é possível perceber como “Exit 8” é bem-sucedido em pegar a premissa simples do game e transformá-la em um longa-metragem interessante e cheio de metáforas e referências. A obra de Genki Kawamura explora bem reflexões em torno da paternidade e da sociedade japonesa como um todo. E é impressionante como ele consegue fazer isso simplesmente colocando um personagem “perdido” dentro de um corredor de uma estação de metrô. É intrigante acompanhar a tendência de jogos indie ganharem adaptações para o cinema, assim como ocorreu recentemente em “Iron Lung: Oceano De Sangue”.

Classificação:


Título Original: 8番出口 (Japão, 2025)
Com: Kazunari Ninomiya, Yamato Kochi, Naru Asanuma, Kotone Hanase e Nana Komatsu
Direção: Genki Kawamura
Roteiro: Kentaro Hirase e Genki Kawamura
Duração: 95 minutos

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