É interessante ver como o diretor Christopher Nolan construiu um evento em torno de seus filmes, tanto que “A Odisseia” começou a vender ingressos para o cinema um ano antes de sua estreia. Seu novo longa-metragem demonstra seu amor pela experiência cinematográfica ao ser filmado inteiramente com câmeras IMAX, cujo formato grandioso de exibição faz com que assistir ao filme em uma sala de cinema seja um diferencial. É uma forma de competir com o streaming e com a comodidade de assistir a um filme em casa.
Confesso que não conheço muita coisa sobre “A Odisseia”, então nunca li o livro nem assisti a nenhuma outra adaptação. A versão de Christopher Nolan utiliza recursos que se tornaram características marcantes da filmografia do diretor. O primeiro deles é a abordagem da história. Assim como fez em "Batman Begins", Nolan conta a história de “A Odisseia” da maneira mais verossímil possível. Dessa forma, não vemos nenhum deus na tela, mas percebemos suas ações por meio de outros elementos, como a natureza. Contudo, o cineasta manteve algumas criaturas míticas, como o Ciclope.
Outro elemento importante é a narrativa contada fora de ordem cronológica. Esse recurso é, sem dúvida, um dos mais importantes da filmografia de Nolan e, em “A Odisseia”, é fundamental para a trama. Boa parte da história é contada por meio de flashbacks, nos quais Odisseu (Matt Damon) tenta se lembrar dos acontecimentos enquanto se esforça para recuperar a memória. Assim, o espectador, assim como o protagonista, acompanha o desenvolvimento da trama.
Existe também uma semelhança narrativa com a jornada de “Oppenheimer”, na qual o protagonista lida com as consequências dos próprios atos. Odisseu enfrenta as consequências dos acontecimentos ocorridos durante a Guerra de Troia, na qual os gregos invadiram e destruíram a cidade. Os horrores que presenciou o afetam profundamente. Na volta para casa, ele enfrenta diversos desafios e fica preso em uma ilha com Calipso (Charlize Theron), onde precisa resistir aos encantos da ninfa. Uma das maneiras de lidar com o trauma é justamente esquecer o que aconteceu.
Enquanto Odisseu enfrenta sua jornada, sua família aguarda seu retorno para casa. Sua esposa, Penélope (Anne Hathaway), e seu filho, Telêmaco (Tom Holland), lidam com uma situação complicada, pois um grupo de homens pretende conquistar a mão da rainha e tomar o lugar do rei. Como estão há muito tempo sem notícias de Odisseu, os pretendentes querem que ele seja considerado morto. O filho vai em busca de notícias sobre o pai, enquanto a esposa sofre com a pressão dos pretendentes, especialmente de Antínoo (Robert Pattinson).
O elenco é maravilhoso, e os atores, mesmo aqueles com menos tempo em cena, conseguem se destacar. Contudo, dois deles se sobressaem entre os coadjuvantes. Primeiro, temos Circe, interpretada por Samantha Morton. A cena que envolve a transformação de homens em animais impressiona tanto pela carga dramática da atuação quanto pelos efeitos visuais. Já Eumeu, interpretado por John Leguizamo, funciona como uma figura trágica e como elo entre Odisseu e Telêmaco, por ter convivido com ambos.
Nos efeitos visuais e na cenografia, o filme é primoroso ao misturar efeitos práticos com computação gráfica, resultando em um visual verossímil e impressionante. Vale destacar também a trilha sonora de Ludwig Göransson, em sua terceira parceria com Nolan. A música combina elementos épicos com sintetizadores, que se mesclam aos sons diegéticos e criam uma estética peculiar, adequada ao clima épico e verossímil proposto pelo diretor.
Dessa forma, “A Odisseia” resulta em um grande épico. O filme combina o drama da jornada de Odisseu com a grandiosidade dos desafios enfrentados pelo protagonista ao longo do caminho. Tudo isso sem deixar de lado a importância dos personagens e das tramas secundárias, fundamentais para o desenvolvimento da narrativa.
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