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quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

Anomalisa

É impressionante a capacidade do roteirista e também diretor Charlie Kaufman em cirar histórias fora de comum, peculiares e sensacionais. Algo como se fosse uma anomalia dentro de Hollywood, aproveitando para fazer referência ao próprio título do seu novo filme: “Anomalisa”. Dessa vez ele se juntou a Duke Johnson, que é um especialista em animação stop-motion. E quem diria que usando bonecos ele talvez tenha conseguido fazer o seu trabalho mais humano.

Michael Stone (David Thewlis) viaja para Cincinnati onde irá dar uma palestra. Ele escreveu um livro sobre atendimento ao cliente. Logo uma coisa começa a chamar a atenção no filme. Tirando o protagonista, todos os outros personagens parecem ter a mesma voz e uma fisionomia parecida. O próprio filme brinca com isso já que o hotel onde Michael se hospeda se chama Fregoli, que é o nome de uma síndrome rara no qual o paciente acredita que várias pessoas diferentes são exatamente a mesma só que disfarçadas.

Então enquanto ele está indo para o seu quarto ele ouve uma voz feminina diferente das outras que ele costuma ouvir. Obviamente que isso chama a sua atenção e ele vai atrás para descobrir a quem ela pertence. Eis que ele conhece Lisa (Jennifer Jason Leigh), que está acompanhada de uma amiga. As duas vieram para a palestra de Michael. Ela tem uma pequena cicatriz do lado direito do rosto que ela cobre delicadamente com o cabelo num sinal de vergonha e timidez.

Por que Michael se interessaria por Lisa já que a sua amiga é teoricamente mais bonita e mais inteligente? Justamente pelo fato de ser diferente. Se em “Brilho Eterno Sem Lembranças” os personagens tinham uma máquina para apagar as memórias da pessoa amada, aqui o protagonista simplesmente acha que as pessoas viraram apenas uma pessoa genérica. E justamente por isso ele virou um especialista em atendimento ao cliente já que ele tem a capacidade de enxergar todas as pessoas como se fosse a mesma. Isso é sensacional!

Enquanto Lisa se interessa por Michael por ser um ídolo, já que ela leu o livro e está lá para a palestra, ele se interessou por ela apenas por ser diferente das outras pessoas. Muitas vezes não é assim que o amor funciona? Existem tantas pessoas no mundo, então por que você escolheu aquela para ficar junto? Pode ter sido por diversos motivos, mas com certeza é o fato dela ser diferente de alguma forma para você. Por ter se destacado de alguma maneira, seja por seu comportamento e/ou atributos físicos.

Eis então que Kaufman precisou usar bonecos para garantir a humanidade de sua história. Talvez se fosse feita usando atores de forma comum o resultado não tivesse sido o mesmo. Ele precisou fazer algo diferente para chamar a nossa atenção. E sua filmografia sempre utiliza de elementos peculiares e inusitados para contar uma boa história. Então com mais esse filme ele prova que sua teoria está correta e que é necessário fazer algo diferente para chamar a atenção do que ele quer contar.

Antes ele precisava de algum diretor como Spike Jonze ou Michel Gondry para dirigir seus roteiros. Em “Sinédoque, Nova Iorque” ele resolveu dirigir por conta própria e foi necessário para conseguir colocar para fora toda a sua imaginação. Aqui ele precisou de ajuda novamente e fez muito bem em convocar Duke Johnson, já que não possuía experiência com animações.
O trabalho técnico também é impressionante. A riqueza e realismo dos cenários e principalmente o cuidado com os personagens. O nível de detalhes é fantástico, como o jeito que os bonecos respiram, andam ou suas expressões faciais. Em diversos momentos do filme é fácil esquecer que aquilo não é real com pessoas de verdade.

É preciso citar também o ótimo trabalho dos atores com as vozes. Jennifer Jason Leigh sem dúvidas é o destaque por conferir toda uma delicadeza e carisma a Lisa. A cena dela cantando um trecho de uma música de Cindy Lauper é sem dúvidas um dos momentos mais bonitos do filme. David Thewlis também faz um ótimo trabalho, mas impressionante mesmo é como Tom Noonan conseguiu dar voz a todos os outros personagens de maneira diferente mesmo soando de certa forma parecida.

O que nos faz sermos humanos? Com mais essa anomalia Charlie Kaufman prova mais uma vez que é um gênio em criar histórias diferentes e interessantes, mas ao mesmo tempo muito similares. Sempre tentando responder essa questão que não é nada fácil de ser respondida. E quem diria que bonecos seriam capazes de tentar responder isso da  melhor maneira.

Título Original: Anomalisa (EUA, 2015)
Com as vozes de: David Thewlis, Jennifer Jason Leigh e Tom Noonan
Direção: Charlie Kaufman e Duke Johnson
Roteiro: Charlie Kaufman
Duração: 90 minutos

Nota: 5 (excelente)
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