A premissa de “Coyote vs. Acme” é muito boa: o personagem Coyote, da animação dos Looney Tunes, processa a empresa Acme pelos produtos que não funcionam. Ele utilizou os equipamentos para caçar o Papa-Léguas, mas os dispositivos sempre falham. Então ele vê na TV o anúncio de um advogado chamado Kevin Avery (Will Forte) e decide contratá-lo para processar a companhia.
O estilo de “Coyote vs. Acme” lembra bastante “Uma Cilada para Roger Rabbit” tanto pela mistura entre personagens animados e humanos quanto pela premissa. O filme de 1988 mostrava Roger, o coelho animado, sendo acusado de um assassinato. Então ele pede ajuda para um detetive particular que era conhecido por ajudar desenhos. Dirigido por Robert Zemeckis, o longa-metragem fazia paródia com filmes noir. Já a obra de Dave Green utiliza os filmes de advogados para fazer humor com o absurdo em torno de um personagem de desenho animado processar uma grande empresa.
O filme surpreende ao equilibrar o tom de comédia, utilizando referências ao universo Looney Tunes (com direito a participação de alguns personagens), com drama. O roteiro escrito por Samy Burch desenvolve a relação entre o Coyote e o advogado. Kevin é especializado em pequenos processos contra a Acme, mas não se sente preparado para enfrentar um grande processo contra uma empresa enorme. Sua falta de autoestima é contrastada com a persistência do Coyote, que apesar de nunca conseguir capturar o Papa-Léguas, nunca desiste.
O longa-metragem faz uma ótima crítica às grandes corporações, que controlam os produtos e não se importam com os males que seus produtos podem causar. Uma empresa como Acme talvez não tenha o mesmo impacto na sociedade do que as “Big Techs”. Hoje são elas que controlam nossas vidas através da prestação de serviços na Internet através de aplicativos.
No universo de “Coyote vs. Acme” a Acme também fabrica diversos artigos para humanos, mas ao contrário dos produtos para desenhos, eles funcionam muito bem. Esse detalhe abre margem para a investigação de Kevin, junto com sua sobrinha Paige (Lana Condor) e o Coyote, em torno da corporação para entender os reais motivos da falta de qualidade dos artigos para desenhos.
Will Forte está ótimo e sua atuação explora bem a mistura de drama com comédia da narrativa. Seu timing cômico é muito bom, fazendo com que suas interações com o Coyote resultem em momentos hilários e emocionantes, já que o filme explora o relacionamento e paralelos entre a vida deles. Outra relação importante é de Kevin com Buddy Crane (John Cena), advogado bem-sucedido da Acme. Eles foram colegas de faculdade, então o protagonista enxerga nele um medo de enfrentar o próprio passado, já que o ex-colega tem fama e dinheiro, enquanto ele é apenas medíocre.
Outro elemento positivo do filme é a trilha sonora de Steven Price, que utiliza tons sérios e grandiosos que criam um clima épico para a narrativa, fazendo com que a trama pareça mais séria do que realmente é. Essa é uma boa forma do compositor contribuir para o longa-metragem, em que um pouco de exagero gera humor e combina com a energia caótica da animação dos Looney Tunes.
Dessa forma, “Coyote vs. Acme” resulta em um filme com a capacidade de transformar uma premissa absurda em uma comédia que também funciona como crítica às grandes corporações e como história de relacionamento entre os personagens.
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