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quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

Steve Jobs

Fazer uma cinebiografia sobre Steve Jobs não é uma tarefa nada fácil já que sua vida foi marcada por diversos episódios interessantes, principalmente o lançamento dos produtos da Apple, por impactar nas indústrias da tecnologia e entretenimento. O livro escrito por Walter Isaacson conseguiu em mais de 600 páginas contar sua história e mostrar o lado mais humano de Jobs. Agora tentar resumir isso num filme de 2 horas é complicado. O diretor Joshua Michael Stern tentou fazer isso em “Jobs” estrelado por Ashton Kutcher, mas apesar do ator ter uma semelhança incrível com Jobs e o filme focar em alguns dos principais momentos da vida de Steve não conseguiram retratar de maneira totalmente satisfatória a figura de Jobs. 

Em “Steve Jobs” dirigido por Danny Boyle (Em Transe) e com roteiro de Aaron Sorkin (A Rede Social) o formato de contar a história de Jobs foi diferente. Eles resolveram focar em 3 momentos da vida dele: o lançamento do Macintosh em 1984, o lançamento do NeXT em 1988 e do iMac em 1998. O lançamento dos produtos da Apple sempre são marcados por grandes eventos que cria uma expectativa enorme dos fãs, então foi uma ótima ideia focar nos bastidores desses 3 eventos. Dessa forma iremos conhecer um pouco mais do lado humano de Steve e traços da sua personalidade como o problema em reconhecer a paternidade de sua filha Lisa ou o jeito como ele tratava seus funcionários sempre os forçando a fazer o máximo e o “impossível” para que tudo ficasse “perfeito” do jeito que ele queria.

A história também foca em poucos personagens. Além do próprio Steve, interpretado por Michael Fassbender, temos Joanna Hoffman (Kate Winslet) que era executiva de marketing da Apple, “amiga” e confidente de Jobs, Steve Wozniak (Seth Rogen) que foi o cocriador da Apple, John Sculley (Jeff Daniels) que foi CEO da Apple, Andy Hertzfeld (Michael Stuhlbarg) que fez parte da equipe original do Mac e Chrisann Brennan (Katherine Waterston) que é mãe de Lisa, primeira filha de Jobs. E claro, temos também Lisa mostrada em 3 idades diferentes interpretadas por Makenzie Moss, Ripley Sobo, e Perla Haney-Jardine.
Ao focar em apenas 3 atos, com alguns flashback pontuais e muito bem utilizados, e em poucos personagens o filme consegue retratar apenas o essencial para se entender a figura de Steve Jobs. E com apenas 2 horas esse detalhe é importante e acaba funcionando de maneira brilhante, além de fugir de uma fórmula básica de cinebiografias. Dessa forma foi possível chegar o mais próximo possível em retratar de maneira mais fiel a essência de Jobs. O foco maior acaba sendo nas pessoas e na personalidade de Steve e não os seus produtos, apesar de que não era possível deixá-los totalmente de lado e vemos o cuidado dele com a perfeição do design ou como ele tinha certeza de que iriam mudar o mundo. 

Mas a parte mais brilhante do roteiro de Aaron Sorkin foi focar na “distorção da realidade” de Jobs, principalmente no 3º ato do filme. Essa sempre foi sua principal característica e é citada e mostrada diversas vezes na biografia de Isaacson. Steve tinha problemas em conseguir enxergar a realidade e muitas vezes ele só enxergava o que ele queria. Isso obviamente afetou bastante a sua vida pessoal e a maneira como ele lidava com as pessoas. E isso é retratado muito bem no filme.

Os roteiros de Aaron Sorkin sempre têm como ponto forte os diálogos, quase de maneira teatral, onde a interpretação dos atores tem fator ainda mais importante para que o filme funcione. Já a filmografia do diretor Danny Boyle sempre teve um lado visual muito forte. Então aqui ao vê-los trabalhando juntos é possível perceber um pequeno conflito na realização do filme, mas que no final das contas acabou criando um ótimo equilíbrio na parte técnica do filme. 

Para não ficarmos como uma espécie de peça teatral filmada os personagens estão sempre em movimento ou acontece alguma mudança de local para dar um ritmo maior ao filme para que ele não acabasse ficando monótono. O trabalho da montagem de Elliot Graham e do diretor de fotografia Alwin H. Küchler foi importante nesse detalhe. Além disso, Boyle conseguiu criar boas rimas visuais, ainda mais que os 3 atos do filme tem muitas semelhanças que ajudam na construção das mesmas. Entram também os detalhes do design de produção para mostrar algumas das excentricidades de Jobs, como num flashback que mostra sua casa sem móveis já que ele tinha dificuldades em encontrar móveis com o design perfeito que ele queria. Já a trilha sonora de Daniel Pemberton exagera um pouquinho na “emoção” em alguns momentos, mas na maior parte do tempo funciona muito bem no tom dramático da história.
Não poderia deixar de citar o ótimo trabalho do elenco. Apesar de ter pouco semelhança física com Jobs, Michael Fassbender entrega uma atuação brilhante sem exagerar nos maneirismos da pessoa real criando um Jobs totalmente humano e verossímil. Kate Winslet segue no mesmo caminho e sua personagem funciona muito bem como confidente e como um tipo de bússola moral de Jobs já que ela sempre insiste em que ele tente fazer a coisa acerta e admitir suas falhas. Quem também merece destaque é Jeff Daniels e as cenas entre Sculley e Jobs estão entre as melhores do filme. Seth Rogen também surpreende como Wozniak ao mostrar um lado dramático, mas que ainda pode melhorar se ele explorar mais esse tipo de papel.

“Steve Jobs” consegue fazer um resumo perfeito do lado pessoal do seu personagem título ao mostrar seus conflitos pessoais, principalmente o problema da distorção da realidade, sem deixar de lado os produtos que ele criou. Dessa forma foi possível retratar de maneira muito boa a essência da sua figura para tentarmos entender um pouco mais sobre sua vida e da sua importância na história recente da humanidade sem deixarmos de perceber que ele é também humano e cheio de falhas longe da “perfeição” do que ele criou.

Título Original: Steve Jobs (EUA, 2015)
Com: Michael Fassbender, Kate Winslet, Seth Rogen, Jeff Daniels, Michael Stuhlbarg, Katherine Waterston, Makenzie Moss, Ripley Sobo, Perla Haney-Jardine, Sarah Snook, John Ortiz e Adam Shapiro
Direção: Danny Boyle
Roteiro: Aaron Sorkin (baseado no livro Steve Jobs de Walter Isaacson)
Duração: 122 minutos

Nota: 5 (excelente)
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